Análise de Poemas
 
 
        Actualmente, está disponível a análise de dois poemas de Ricardo Reis, Para ser Grande, sê Inteiro e Segue o teu Destino.
 
 
Para ser Grande, sê Inteiro
 
Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.

 

        Reis defende que o homem "seja inteiro sem a fé". É um princípio basilar da filosofia de Reis que o homem encontre no seu sofrimento a sua nobreza, ou seja, que aceita a dor da vida de maneira inteira, que seja inteiro nesse sofrimento, mesmo que não seja inteiro numa fé. É mesmo por não ser inteiro numa fé que o homem deve ser forte em ser inteiro na realidade.
        "Para ser grande, sê inteiro", diz Reis. O homem, porque aceita a realidade, deve ter uma atitude nobre mesmo perante o sofrimento que vem com essa aceitação.
        "Nada teu exagera ou exclui". Reis defende que o homem abdique de tudo, mas que não abdique de si próprio. Apenas aquilo que é ilusório deve ser retirado da experiência humana, porque traz ao homem apenas humilhação. Entre essas coisas estão a religião e o amor.
        "Sê todo em cada coisa". Ou seja, acha em cada coisa a tua inteira felicidade, porque a felicidade, se está nos objectos, não está na realidade. E é no campo estrito dos objectos, e não da vida, que o homem expressa a sua personalidade. Trata-se enfim de uma visão estóicista, de um sofrimento e de uma resignação que encontra apenas um campo muito limitado de liberdade humana.

 



Segue o teu Destino
 
Segue o teu destino,
Rega as tuas plantas,
Ama as tuas rosas.
O resto é a sombra
De árvores alheias.
 
A realidade
Sempre é mais ou menos
Do que nós queremos.
Só nós somos sempre
Iguais a nós-próprios.
 
Suave é viver só.
Grande e nobre é sempre
Viver simplesmente.
Deixa a dor nas aras
Como ex-voto aos deuses.
 
Vê de longe a vida.
Nunca a interrogues.
Ela nada pode
Dizer-te. A resposta
Está além dos deuses.
 
Mas serenamente
Imita o Olimpo
No teu coração.
Os deuses são deuses
Porque não se pensam.

 

 

         O uso do imperativo dá um tom geral de comando moral, de ensinamento. É como se o poeta, chegando a conclusões, as fizesse perdurar no tempo,   ensinando-as aos seus discípulos.
        Nas duas primeiras estrofes, Reis aconselha que se viva a vida sem pensar, porque nós nunca vamos mudar na essência do que somos, apenas a nossa interpretação da Natureza.
        Reis procura apenas fugir da dor. Por isso recomenda: vive só e deixa a dor nas aras como ex-votos aos deuses. Reis quer estar só e deixar de sofrer. Portanto conclui que a sua dor vem de estar com os outros. A sua dor vem da sua vida exterior. É essa vida que dá em sacrifício do altar dos deuses.
        Isso confirma-se no que ele diz: "Vê de longe a vida/Nunca a interrogues". A resposta está além dos deuses – ou seja, é absurda, existe para além do divino, e existe apenas porque pensamos nela.
        Antes devemos "imitar o Olimpo no nosso coração". Ou seja, ser deuses por dentro, ser mestres do nosso íntimo. Não pensarmos dar-nos-á acesso a uma tranquilidade que desconhecemos. Deixaremos de sofrer.


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João Rodrigues
nº13 12ºC4